Leia, gratuitamente, as primeiras páginas do romance "Depois do Verão"

Depois do Verão mistura romance, suspense e drama psicológico numa história marcada por segredos, tráfico de droga, manipulação, culpa e descoberta pessoal. Um livro sobre crescer demasiado depressa, enfrentar o passado e perceber que amar alguém também significa sobreviver às partes mais difíceis dele.


Capítulo 1

 

 

O pior é que eu nem sequer me lembro do momento em que o Carlos morreu.

Há pessoas que conseguem contar tragédias ao detalhe; o som, o cheiro, a última frase, o instante exato em que perceberam que alguma coisa estava errada.

     Eu não consigo.

     Cada vez que tento voltar àquela noite, a minha cabeça faz exatamente a mesma coisa: leva-me até um certo ponto e depois apaga tudo. Como se alguém tivesse arrancado as páginas finais da memória e deixado só o início da história.

Lembro-me da praia do Furadouro cheia de gente. Do calor ainda preso no ar apesar de já ser noite. Das luzes dos bares refletidas na água. Da música demasiado alta misturada com gargalhadas e vozes bêbedas. Lembro-me do Carlos a dançar no meio da areia como se estivesse sozinho no mundo, completamente indiferente às figuras ridículas que fazia. Ele nunca teve vergonha de existir. Acho que era isso que mais invejava nele.

     Eu estava sentado no muro junto à marginal quando ele apareceu à minha frente com dois copos de plástico na mão e uma quantidade absurda de pó azul espalhada pelo cabelo por causa da festa das cores.

     — Juro-te que vi uma rapariga a olhar para ti há bocado — disse ele, entregando-me um dos copos.

     — Devia estar a olhar para outra pessoa.

     — Tens uma autoestima mesmo deprimente.

     — E tu tens álcool a mais no sangue.

     Ele sorriu imediatamente.

     Aquele sorriso fácil, irritante, impossível de levar a sério.

     — É verão, Rúben. Relaxa um bocadinho. Tu pareces um homem divorciado de quarenta anos preso no corpo de um miúdo de dezassete.

     Lembro-me de me rir e do sabor horrível da bebida quente. 

     Lembro-me da música.

     Depois disso… nada.

     O vazio começa aí.

     Não consigo lembrar-me da mota. Não consigo lembrar-me da estrada. Não consigo lembrar-me do acidente. Durante semanas achei que as memórias iam voltar naturalmente, mas nunca voltaram. E quanto mais tempo passa, pior fica a sensação de que talvez nunca venham.

     Abri os olhos devagar e voltei a olhar para a curva à minha frente.

     Os carros continuavam a passar normalmente. Um atrás do outro. Pessoas a caminho do trabalho, da praia, de casa, da vida delas. Nenhuma fazia ideia de que eu estava ali parado há quase uma hora a olhar para um rail amolgado como se ele me pudesse responder alguma coisa.

     Aproximei-me mais da berma.

     O metal ainda estava deformado no ponto onde a mota bateu. Pequeno e discreto. Quase invisível. Mas eu sabia exatamente onde olhar porque vinha ali demasiadas vezes desde o acidente.

     Às vezes perguntava-me se aquilo era saudável. 

     Outras vezes achava que era a única coisa honesta que ainda fazia.

     — O que é que aconteceu naquela noite, Carlos?

     A minha voz saiu baixa, levada imediatamente pelo vento vindo do mar.

     Senti-me ridículo quase no mesmo instante.

     Mas desde a morte dele comecei a falar sozinho com frequência. Ou talvez não fosse exatamente sozinho. Talvez parte de mim ainda continuasse à espera de ouvir a voz dele outra vez. A gozar comigo. A dizer qualquer coisa absurda só para quebrar o silêncio.

     Mas o silêncio continuava sempre lá.

     Enfiei as mãos nos bolsos do casaco e olhei em volta. O céu estava cinzento, pesado, típico do final de agosto. O verão estava praticamente a acabar e, pela primeira vez desde criança, eu sentia que isso não me causava absolutamente nada.

     Nenhuma nostalgia.

     Nenhuma tristeza.

     Nenhuma vontade de aproveitar os últimos dias.

     Em mim só existia o cansaço.

     Peguei no telemóvel quase por reflexo. O fundo do ecrã continuava a ser uma fotografia minha e do Carlos tirada no verão passado em Vilar de Mouros. Estávamos os dois completamente cobertos de tinta colorida depois da Holi Party do festival. O braço dele estava atirado sobre os meus ombros e os dois parecíamos tão felizes naquela fotografia que às vezes me fazia impressão olhar para ela.

     Passei o dedo pelo ecrã antes de o bloquear novamente.

     A minha mãe dizia que eu precisava de seguir em frente.

     O meu pai dizia que eu precisava de tempo.

     Nenhum deles sabia realmente o que dizer.

     A verdade é que, desde o acidente, os três passámos a circular dentro da mesma casa como pessoas que mal se conhecem. Eles tentavam aproximar-se de mim, eu afastava-me, depois sentia-me culpado por me afastar e acabávamos todos presos naquele ciclo estranho de silêncio e frases cuidadosas.

     No início do verão ainda houve tentativas.

     A minha mãe chegou a cancelar reuniões para jantar em casa comigo. O meu pai começou a aparecer mais cedo algumas noites. Faziam perguntas. Tentavam conversar. Perguntavam se eu queria sair, viajar, fazer alguma coisa.

     Eu respondia quase sempre da mesma maneira.

     “Não.”

     E aos poucos deixaram de insistir tanto.

     Talvez porque perceberam que não sabiam realmente como lidar comigo.

     Talvez porque fosse mais fácil fingir que o colégio interno era uma solução inteligente em vez de admitir que já não conseguiam chegar ao próprio filho.

     Olhei uma última vez para a curva antes de me afastar da estrada.

     A mota estava estacionada mais atrás, junto às árvores. Continuei sem coragem de voltar a conduzir desde o acidente. Só de olhar para ela sentia imediatamente qualquer coisa apertar-se dentro do peito.

     Mesmo assim subi para cima dela.

     Precisava de voltar para casa.

     Precisava de acabar as malas.

     Precisava de aceitar que, dali a poucas horas, ia deixar para trás a única vida que conhecia.

 

     A casa estava silenciosa quando entrei. Mas não era um silêncio normal. Era o tipo de silêncio que existe quando as pessoas começam a evitar incomodar-se umas às outras. Quando toda a gente anda constantemente cansada demais para conversar e demasiado magoada para admitir isso.

     Durante anos aquela casa foi exatamente o contrário. Telefones a tocar. Funcionários da joalharia do meu pai a ligar a qualquer hora. A minha mãe a discutir casos em chamadas intermináveis enquanto caminhava pela sala. Jantares rápidos entre compromissos. Gente a entrar e sair constantemente.

     Agora parecia um lugar abandonado.

     Deixei as chaves cair na consola da entrada e o barulho ecoou pelo corredor inteiro.

     Ninguém respondeu.

     Subi lentamente para o quarto e encontrei duas malas abertas em cima da cama. 

     Fiquei parado à porta a olhar para aquilo. Era estranho como duas malas conseguiam resumir tão bem o estado da minha vida naquele momento. Tudo empacotado à pressa. Tudo provisório. Tudo com aquele ar irritante de “novo começo” que os adultos adoram usar quando não sabem resolver problemas.

     Entrei finalmente no quarto e sentei-me na ponta da cama.

     As paredes continuavam cheias de fotografias antigas. Eu e o Carlos no Gerês quando tínhamos doze anos. Eu e os meus amigos na viagem de finalistas do nono ano. Bilhetes de concertos presos ao espelho. Pulseiras de festivais esquecidas na secretária.

     Uma vida inteira espalhada em objetos que, de repente, pareciam pertencer a outra pessoa.

     Comecei a arrumar roupa sem grande vontade. Não porque precisasse realmente de pensar no que levar, mas porque manter as mãos ocupadas ajudava a evitar pensamentos.

 

     Abri uma gaveta à procura do carregador do portátil e encontrei uma fotografia dobrada entre dois cadernos antigos.

     Reconheci-a imediatamente antes sequer de a tirar dali.

     Eu e o Carlos no festival do verão passado.

     Sentei-me outra vez na cama enquanto observava a fotografia.

     Ele estava completamente destruído depois da festa das cores. Tinha tinta rosa presa no cabelo, verde na cara e uma expressão idiota de felicidade absoluta. Eu aparecia ao lado dele a rir-me tanto que a imagem ficou ligeiramente tremida.

     Lembrei-me exatamente daquele momento.

     O Carlos tinha acabado de tentar convencer duas turistas espanholas de que éramos primos do vocalista dos Arctic Monkeys porque uma delas perguntou onde ficavam as casas de banho.

     Sorri sem querer. Foi automático.

     E isso fez-me sentir imediatamente pior.

     Porque desde a morte dele comecei a associar qualquer momento minimamente feliz a culpa. Como se rir fosse uma forma de traição.

     Fiquei a olhar para a fotografia durante demasiado tempo. Havia qualquer coisa profundamente injusta em imagens antigas. Congelavam momentos que já não existiam e obrigavam-nos a encarar o facto de que, naquela altura, ainda não fazíamos ideia do que vinha aí. Na fotografia, eu e o Carlos parecíamos exatamente aquilo que éramos: dois miúdos sem problemas reais, sem medo do futuro, sem noção de que a vida podia mudar numa única noite.

     Passei o polegar pela margem da fotografia antes de a guardar cuidadosamente entre as páginas de um livro que coloquei dentro da mala.

     Ouvi a porta da rua bater no piso de baixo alguns minutos depois.

     Os meus pais tinham chegado.

     Fechei lentamente o fecho da mala e fiquei sentado na cama durante alguns segundos antes de descer. Não queria ter aquela conversa outra vez. Mas desde que o colégio apareceu pela primeira vez nas conversas lá de casa, parecia que todas as noites acabavam da mesma maneira: tensão, silêncio e frases interrompidas a meio.

     Quando entrei na cozinha, a minha mãe estava junto da bancada a tirar os brincos enquanto lia qualquer coisa no telemóvel. O meu pai servia-se de café mesmo sabendo perfeitamente que depois se ia queixar de não conseguir dormir.

     Nenhum dos dois reparou imediatamente em mim.

     Fiquei alguns segundos parado à entrada a observá-los. Era estranho como pareciam cansados de formas diferentes. O meu pai parecia fisicamente esgotado quase todos os dias. Ombros pesados, olhos cansados, gravata sempre desapertada ao final da tarde. A minha mãe parecia cansada por dentro. Como se passasse o dia inteiro a controlar emoções até já não lhe sobrar energia para mais nada quando chegava a casa.

     Às vezes perguntava-me se eles já eram assim antes do acidente ou se eu só tinha começado a reparar agora.

     — Já fiz as malas — disse finalmente.

     A minha mãe levantou os olhos do telemóvel.

     — Ainda falta alguma coisa?

     A pergunta era simples, mas havia qualquer coisa no tom dela que me irritava. Talvez porque soasse demasiado normal. Demasiado prática. Como se eu fosse só um filho prestes a entrar para a universidade e não alguém que estava claramente a desmoronar-se há meses.

     Ri-me sem vontade nenhuma.

     — Tirando a parte em que eu não quero ir?

     O meu pai pousou a chávena devagar.

     — Rúben…

     — Não vale a pena começarmos outra vez.

     A minha mãe guardou o telemóvel no bolso do blazer e encostou-se ligeiramente à bancada.

     — Então o que queres que façamos?

     Olhei para ela durante alguns segundos.

     — Honestamente? Gostava que alguém me tivesse perguntado isso antes de decidirem mudar-me de vida.

     Ela desviou o olhar por um instante curto demais para qualquer outra pessoa reparar, mas eu reparei. A minha mãe fazia muito isso quando alguma coisa a atingia mais do que queria demonstrar.

     — Nós estamos a tentar ajudar-te.

     — Mandar-me para um colégio interno é ajudar-me?

     — Continuar aqui também não está a resultar.

     — Ah, então essa é a solução? Tiram-me da minha escola, dos meus amigos, da única cidade onde eu realmente tenho alguma coisa… e esperam que isso me cure?

     — Ninguém falou em curar-te! — respondeu ela imediatamente.

     — Mas é isso que vocês querem, não é? Que eu volte ao normal o mais depressa possível porque já ninguém sabe lidar comigo.

     O meu pai passou a mão pela cara antes de falar.

     — Não digas isso.

     — Então diz-me o que mudou. Porque durante anos vocês quase nunca estavam cá e agora de repente preocupam-se imenso com a minha saúde mental.

     A expressão da minha mãe endureceu imediatamente.

     — Isso é injusto.

     — Talvez. Mas não deixa de ser verdade.

     Ela ficou em silêncio durante alguns segundos. O suficiente para me fazer perceber que a frase tinha acertado mais do que eu esperava.

     O meu pai aproximou-se ligeiramente da bancada.

     — Nós sabemos que falhámos em muita coisa, Rúben.

     Aquilo apanhou-me desprevenido.

     Olhei imediatamente para ele.

     O meu pai raramente admitia erros daquela forma. Principalmente os que envolviam família.

     Ele suspirou antes de continuar.

     — Mas isto não tem a ver connosco. Tem a ver contigo.

     — Claro que tem.

     — Tu passaste o verão inteiro fechado naquele quarto.

     — O Carlos morreu.

     — Nós sabemos disso.

     — Não parecem saber.

     A minha mãe fechou os olhos durante um instante antes de responder. Quando voltou a olhar para mim, a voz saiu mais baixa.

     — Achas que foi fácil para nós ver-te naquele hospital?

     A pergunta ficou suspensa no ar.

     Eu não respondi imediatamente.

     Porque aquela era a parte sobre a qual nunca falávamos.

     O hospital. As semanas seguintes. O estado em que eu fiquei.

     A minha mãe continuou antes que eu conseguisse dizer alguma coisa.

     — Achas que foi fácil ouvir os médicos dizerem que tu tiveste sorte enquanto o teu primo estava morto numa morgue?

     Desviei imediatamente o olhar.

     Senti o estômago apertar-se da mesma maneira que acontecia sempre que alguém dizia aquilo em voz alta.

     Morto.

     Ainda odiava ouvir a palavra.

     O meu pai apoiou as mãos na bancada e respirou fundo.

     — Nós não esperamos que superes isto rapidamente. Nem sequer sabemos se alguma vez se supera uma coisa destas. Mas também não podemos fingir que está tudo bem enquanto tu te destróis aos poucos.

     A cozinha ficou em silêncio depois disso.

     Só se ouvia o zumbido do frigorífico e o som distante de carros na rua.

     Passei a mão pela nuca e desviei os olhos para a janela.

     Lá fora começava a escurecer.

     O verão estava a acabar.

     E eu tinha a sensação estranha de que a minha vida também tinha acabado algures pelo caminho, mesmo que toda a gente continuasse à espera que eu seguisse em frente como se nada tivesse acontecido.

     — Eu não quero ir — disse por fim, já sem força para discutir.

     A minha mãe respirou fundo.

     — Eu sei.

     E, pela primeira vez em muito tempo, pareceu sincera.

     O meu pai olhou para a minha mãe como se estivesse à espera que ela dissesse mais alguma coisa, mas ela manteve-se calada. Limitou-se a cruzar os braços e a encostar-se novamente à bancada da cozinha, cansada. Não com aquele cansaço normal de fim de dia. Era um cansaço mais fundo, mais antigo. Pela primeira vez desde o acidente, percebi que eles também pareciam perdidos.

     E isso irritou-me.

     Porque eu precisava que alguém soubesse o que fazer. Precisava que alguém tivesse respostas.

     Mas a verdade era que nenhum de nós fazia ideia de como voltar a funcionar normalmente.

     Desviei os olhos para o relógio na parede.

     Ainda faltavam horas para eu ter de acordar e seguir para aquele colégio, mas já sentia a ansiedade presa no corpo desde o momento em que tinha saído da cama naquela manhã. Uma sensação constante de desconforto, como se alguma coisa estivesse errada o tempo todo e eu nunca conseguisse relaxar completamente.

     Peguei novamente na garrafa de água e bebi um gole.

     — E se eu odiar aquilo? — perguntei sem olhar diretamente para eles.

     A minha mãe respondeu primeiro.

     — Então logo pensamos noutra solução.

     — Isso significa o quê exatamente?

     Ela hesitou.

     E só aquele segundo de hesitação bastou para eu perceber que não existia solução nenhuma preparada. O plano deles era simples: mandar-me para longe e esperar que funcionasse.

     Ri-me pelo nariz.

     — Exato.

     O meu pai endireitou-se ligeiramente.

     — Rúben, tenta perceber uma coisa. Nós não estamos a fazer isto porque queremos afastar-te.

     Olhei finalmente para ele.

     — Então porque é que parece exatamente isso?

     Ele ficou calado durante alguns segundos. Depois puxou uma cadeira da mesa e sentou-se lentamente, passando as mãos pelo rosto antes de falar outra vez.

     — Porque esta casa deixou de te fazer bem.

     A frase atingiu-me mais do que devia.

     Talvez porque uma parte de mim soubesse imediatamente que ele tinha razão.

     Desde a morte do Carlos, tudo naquela casa me fazia sentir preso. O quarto. Os corredores. A sala onde os meus tios estiveram sentados depois do funeral enquanto toda a gente falava em voz baixa como se eu pudesse partir-me ao meio a qualquer momento. Até a cozinha parecia diferente agora.

     Todos os espaços tinham memória. Todos os objetos pareciam ligados a alguma coisa anterior ao acidente.

     A minha mãe puxou a cadeira em frente à minha e sentou-se também.

     — Nós sabemos que estás zangado connosco.

     — Não estou zangado.

     Ela olhou-me diretamente nos olhos.

     — Estás, sim.

     Desviei imediatamente o olhar para a mesa.

     Porque ela tinha razão outra vez.

     Eu estava zangado com eles. Comigo. Com o Carlos. Com toda a gente que continuava viva normalmente enquanto eu parecia incapaz de sair do mesmo sítio há meses.

     A minha mãe apoiou os braços na mesa.

     — O teu pai e eu cometemos muitos erros contigo. Acho que sabemos isso melhor agora do que antes.

     Franzi imediatamente a testa.

     Não estava habituado àquela honestidade nela.

     — Mas isto não é uma tentativa de nos livrarmos de ti — continuou. — Se fosse, era muito mais fácil deixarmos-te continuar fechado no quarto até as aulas começarem outra vez.

     — Talvez preferisse isso.

     Ela abanou lentamente a cabeça.

     — Não, não preferias.

     Fiquei calado.

     Porque no fundo também sabia que ela tinha razão nisso.

     Os primeiros dias depois da morte do Carlos tinham sido tão confusos que quase nem me lembro deles. Pessoas em casa constantemente. Mensagens. Chamadas. O funeral. Os meus tios destruídos. Amigos a perguntarem-me coisas para as quais eu não tinha resposta.

     Depois tudo começou a desaparecer aos poucos. As visitas diminuíram. As mensagens ficaram mais espaçadas.

 Os amigos deixaram de insistir para eu sair. E eu comecei a passar dias inteiros fechado no quarto sem fazer absolutamente nada além de dormir, ouvir música e olhar para o telemóvel.

     No início parecia temporário.

     Depois começou a parecer a minha vida.

     — Não consigo entrar numa escola nova e fingir que está tudo bem — disse finalmente.

     O meu pai inclinou-se ligeiramente para a frente.

     — Ninguém te está a pedir isso.

     — Então o que esperam de mim?

     A pergunta saiu mais cansada do que agressiva.

     A minha mãe demorou alguns segundos a responder.

     — Honestamente? Neste momento só espero que voltes a sentir alguma coisa além desta tristeza toda.

     Aquilo ficou preso dentro da minha cabeça.

     Porque era verdade.

     Nos últimos meses tudo parecia distante. Como se eu estivesse constantemente atrás de um vidro a observar a minha própria vida acontecer sem realmente participar nela. Até as coisas que antes gostava de fazer tinham perdido importância. Ouvir música. Os meus amigos. As saídas. As atividades de férias da escola.

     Nada parecia ter peso suficiente para competir com a sensação constante de vazio que ficou depois do acidente.

     O meu pai levantou-se lentamente da cadeira.

     — Devíamos dormir. Amanhã vai ser um dia longo.

     Ninguém discordou.

     A minha mãe aproximou-se de mim antes de sair da cozinha e pousou a mão no meu ombro durante um instante curto, quase hesitante.

     Foi estranho.

     Ela nunca foi muito física comigo. Nenhum dos dois foi.

     Talvez por isso aquele gesto simples me tenha deixado desconfortável.

     — Tenta descansar — disse ela em voz baixa.

     Assenti sem responder.

     Fiquei sozinho na cozinha depois de eles subirem.

     Durante alguns minutos continuei sentado à mesa sem fazer nada, apenas a olhar para a luz amarela por cima da bancada e para o reflexo dela no mármore escuro.

     A casa voltou ao silêncio habitual. Mas dessa vez já não parecia apenas silêncio. 

    Parecia uma despedida.


Adquira o livro, clicando AQUI












 

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O ETERNO DINO

A VIDA E O AMOR DÃO MUITAS VOLTAS

A perda de tempo é a pior de todas as perdas (...) Não adies a tua vida.