Leia as primeiras páginas do livro "Virar a Página"
Escrito em forma de diário, "Virar a Página" acompanha a jornada de uma mulher que vê o seu casamento ruir e precisa de encontrar forças para seguir em frente.
Até que ponto uma mulher traída pode voltar a confiar no amor?No dia do seu casamento, Fátima vê a vida que planeou ruir quando encontra o marido aos beijos com a sua melhor amiga durante a festa. Incapaz de lidar com a dor e com as dúvidas que a perseguem, deixa Portugal e parte para Gramado, no sul do Brasil.Longe da família, dos amigos e das memórias que a atormentam, começa a escrever um diário onde tenta compreender o que aconteceu, enfrentar os seus sentimentos e reconstruir a própria vida. Entre novas amizades, reencontros inesperados e decisões difíceis, percebe que seguir em frente nem sempre significa esquecer.Escrito em forma de diário, "Virar a Página" é um romance sobre confiança, responsabilidade afetiva, amizade, perda e crescimento pessoal. Uma história sobre a coragem necessária para aceitar que nem todos os finais são felizes e que, por vezes, a única forma de continuar é encontrar força para escrever um novo capítulo.
18 de julho
Vicente,
estou sentada na varanda da casa da minha madrinha Alice enquanto escrevo isto. São quase oito da noite e, apesar de estar no Brasil há mais de uma semana, ainda não consegui habituar-me completamente à ideia de que esta é a minha vida agora. Continuo a acordar durante alguns segundos convencida de que estou em Vila Real, no nosso apartamento, e só depois a realidade me cai em cima quando olho à minha volta e encontro um quarto que não é o meu, uma casa que nunca tinha habitado e uma paisagem que me continua a parecer estranha.
A casa da Alice fica numa zona residencial de Gramado, afastada do centro. Não é grande nem particularmente luxuosa, mas tem aquele aspeto acolhedor das casas onde as pessoas realmente vivem. Há fotografias espalhadas pelas estantes, mantas dobradas sobre os sofás e vasos com flores em praticamente todas as divisões. Quando era mais nova e ela vinha passar férias a Portugal, costumava falar desta casa como se fosse um lugar mágico. Na minha cabeça de adolescente, o Brasil parecia um cenário distante onde tudo era mais bonito, mais alegre e mais interessante. Nunca imaginei que acabaria por vir parar aqui nestas circunstâncias.
A Alice tem feito um esforço enorme para me deixar à vontade. Não faz perguntas quando percebe que não quero falar. Não insiste quando passo demasiado tempo fechada no quarto. Limita-se a estar presente, o que neste momento vale mais do que qualquer conselho que alguém me possa dar. Há dias em que quase não trocamos dez frases seguidas e, mesmo assim, sinto-me melhor ao lado dela do que ao lado da maioria das pessoas que me telefonaram desde o casamento.
Hoje obrigou-me a sair de casa.
A palavra certa é mesmo essa.
Obrigou.
Depois do pequeno-almoço apareceu à porta do quarto já vestida para sair e anunciou que eu a iria acompanhar ao centro. Tentei inventar desculpas. Disse que estava cansada, que não me apetecia, que podia ir outro dia. Ela ouviu tudo sem interromper e, quando terminei, respondeu apenas que uma pessoa não consegue reconstruir a vida fechada entre quatro paredes.
Na altura fiquei irritada.
Agora admito que talvez tenha tido razão.
Gramado é diferente de tudo aquilo a que estou habituada. As ruas estão impecavelmente limpas, as casas parecem saídas de um postal ilustrado e há flores por todo o lado. Mesmo em pleno inverno, a cidade mantém uma aparência cuidada que me surpreendeu. Passeámos sem destino durante quase duas horas. Entrámos em lojas, parámos para tomar café e caminhámos por ruas cheias de turistas que pareciam estar a viver as melhores férias das suas vidas.
Foi precisamente aí que tive um dos momentos mais ridículos da minha existência.
Enquanto estava sentada numa esplanada, vi um casal da minha idade atravessar a rua de mão dada. Não os conhecia. Nunca os tinha visto. Mesmo assim, senti uma raiva absurda a crescer dentro de mim. Durante alguns segundos fiquei a observá-los como se tivessem cometido algum crime. Depois percebi o que estava realmente a acontecer.
Não estava zangada com eles.
Estava zangada contigo.
Deixa-me repetir: contigo.
Estava zangada com a ideia de felicidade que eu julgava ter e que desapareceu numa única tarde.
É impressionante a quantidade de emoções contraditórias que cabem dentro da mesma pessoa. Há momentos em que sinto vontade de te apagar completamente da minha vida. Outros em que daria qualquer coisa para conseguir perceber em que momento deixaste de me amar. E depois existem aqueles instantes particularmente humilhantes em que dou por mim a recordar viagens, jantares ou conversas banais e sinto saudades de alguém que me destruiu sem hesitar.
Essa talvez seja a parte mais difícil de admitir.
As pessoas acreditam que o amor desaparece no instante em que somos magoados. Mas não desaparece.
Se desaparecesse, tudo seria muito mais simples.
Quando regressámos a casa, pensei que me sentiria melhor por ter passado algumas horas fora. Não aconteceu. A verdade é que continuo à espera de uma sensação que nunca chega. Durante estes últimos dias tenho vivido com a ideia absurda de que existe um momento específico em que tudo começa a fazer sentido outra vez, como se alguém carregasse num interruptor invisível e a dor passasse automaticamente para segundo plano. Já percebi que não funciona assim.
A Alice foi preparar o jantar e eu subi para o quarto. A mala continua aberta desde o dia em que cheguei. Não porque esteja pronta para partir, mas porque ainda não consegui aceitar que estou instalada aqui. Uma mala fechada pertence a alguém que encontrou o seu lugar. Uma mala aberta pertence a alguém que continua à espera de acordar e descobrir que tudo não passou de um pesadelo.
Em cima da cómoda está uma moldura que a Alice colocou no quarto há anos. A fotografia mostra-a com o marido – que morreu num acidente de trabalho há dez anos – e os dois filhos – que à procura de novas oportunidades e de uma vida mais cómoda e melhor se mudaram para o Rio de Janeiro – uma viagem à serra. Já a observei dezenas de vezes desde que cheguei. Não conheço metade das histórias desta família, mas gosto de olhar para aquela imagem porque transmite uma sensação de estabilidade que neste momento me parece quase impossível de alcançar.
Sei que isto pode parecer estranho, mas ultimamente dou por mim a reparar muito nos casamentos dos outros. Não nos casamentos enquanto cerimónias. Nas relações. Na forma como as pessoas se tratam. Na maneira como conversam umas com as outras. Como se uma parte de mim estivesse constantemente à procura de sinais que não conseguiu ver no próprio relacionamento.
Nos últimos dias perguntei-me muitas vezes quando começou realmente a distância entre nós.
E não, não estou a tentar encontrar uma desculpa para aquilo que fizeste.
Não há desculpa.
Mas existe uma diferença entre procurar uma justificação e tentar compreender uma história.
Sete anos não desaparecem de um dia para o outro.
Por mais zangada que esteja contigo, continuo incapaz de acreditar que acordaste numa manhã qualquer e decidiste arruinar a nossa vida em conjunto. Alguma coisa aconteceu antes disso. Alguma coisa mudou. Alguma coisa foi crescendo em silêncio enquanto eu continuava convencida de que tudo estava bem.
Talvez seja isso que mais me atormenta.
A ignorância.
Não a tua, mas a minha.
Porque quando penso nos últimos meses encontro apenas memórias normais. Jantares depois do trabalho. Domingos passados no sofá. Conversas sobre a lua de mel. Discussões ocasionais sobre despesas ou sobre quem se tinha esquecido de comprar determinada coisa para casa. Nada que justificasse suspeitas. Nada que me fizesse acreditar que a minha melhor amiga e o homem com quem me preparava para passar o resto da vida escondiam alguma coisa.
Ontem encontrei uma fotografia tua no telemóvel.
Não estava à procura dela.
Apareceu simplesmente quando estava a apagar imagens antigas.
Estávamos sentados numa esplanada junto ao mar. Acho que tinha sido durante umas férias no Algarve. Tinhas a cara queimada do sol porque te recusavas a usar protetor solar e estavas a rir-te de alguma coisa que eu já não consigo recordar.
Fiquei a olhar para a fotografia durante vários minutos.
Sabes o que foi mais difícil?
Foi perceber que aquele homem continua a existir dentro da minha memória.
O Vicente que me ajudou quando o meu avô morreu. O Vicente que passava horas a conduzir para me ir buscar quando eu estudava fora. O Vicente que sabia exatamente como me fazer rir quando eu estava de mau humor.
Essas recordações continuam vivas dentro de mim.
E convivem com a imagem daquele homem que encontrei naquela sala da quinta.
No dia do nosso casamento. Do nosso casamento!
É como se estivesse a tentar encaixar duas pessoas completamente diferentes na mesma memória. Talvez por isso ainda não consiga odiar-te da forma que toda a gente espera.
A minha irmã liga-me praticamente todos os dias. Ontem passou vinte minutos a dizer que eu devia apagar todas as fotografias, bloquear o teu número e fingir que nunca exististe. Sei que está apenas a tentar proteger-me, mas as coisas não funcionam dessa maneira. As pessoas não desaparecem porque carregamos num botão. Se assim fosse, o mundo estaria cheio de corações intactos.
A verdade é que continuas presente em quase tudo. Em músicas que ouço sem querer. Em restaurantes que me lembram jantares nossos. Em expressões que repito sem perceber e que aprendi contigo ao longo dos anos. Até no café da manhã apareces. Ainda hoje me servi de uma chávena enorme porque durante tanto tempo fazia café para duas pessoas que o hábito ficou gravado.
É ridículo, mas é real.
Talvez seja precisamente isso que ninguém explica quando uma relação acaba. Não sentimos falta apenas da pessoa. Sentimos falta da rotina. Dos gestos automáticos. Das pequenas coisas que passaram tantos anos a fazer parte da nossa vida que deixámos de lhes prestar atenção.
A Alice bateu à porta há pouco para me chamar para jantar. Disse-me que amanhã vai levar-me a conhecer um lago que fica nos arredores da cidade. Segundo ela, é impossível viver em Gramado e não passar pelo menos uma vez por lá. Concordei porque não me apeteceu discutir.
Além disso, ficar fechada neste quarto também não me está a ajudar grande coisa. Talvez tenha chegado a altura de começar a olhar para tudo isto de outra forma. E não estou a falar de perdão. Nem sequer estou a falar de seguir em frente. Sei que ainda não cheguei a esse ponto. Mas talvez precise de aceitar uma coisa simples: a minha vida não acabou naquele casamento.
Mudou.
E neste momento ainda não faço ideia do que fazer com essa mudança.
Mas continuo aqui. E por muito pouco que isso me pareça, hoje é a única certeza que tenho.
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19 de julho
Vicente,
hoje percebi que existe uma diferença enorme entre estar longe de um problema e conseguir escapar dele.
Quando decidi vir para Gramado, imaginei que a distância iria ajudar. Não porque acreditasse que um oceano tivesse poderes mágicos, mas porque me parecia impossível continuar em Portugal depois de tudo o que aconteceu. Não me apetecia cruzar-me com conhecidos no supermercado. Não me apetecia responder a mensagens cheias de pena. Não me apetecia ouvir versões diferentes da mesma história, nem lidar com a curiosidade das pessoas que, apesar de fingirem preocupação, estão sempre interessadas nos detalhes mais dolorosos da vida dos outros.
A verdade é que consegui fugir de tudo isso, mas não consegui fugir de mim. E isso tem-se revelado um problema bastante maior.
Esta manhã acordei antes das sete. O quarto ainda estava escuro e durante alguns segundos fiquei imóvel, a ouvir o silêncio da casa. A Alice já tinha saído para correr, um hábito que mantém há anos e que eu sinceramente não consigo compreender. Há pessoas que gostam de começar o dia com exercício físico. Eu pertenço ao grupo que considera isso uma forma desnecessária de sofrimento.
Levantei-me e fui até à cozinha. Enquanto preparava café, dei por mim a olhar para o jardim das traseiras. Há uma pequena mesa de madeira junto a um canteiro cheio de flores e uma cerca branca que separa o terreno da casa vizinha. É um espaço simples, mas transmite uma tranquilidade difícil de encontrar. Durante muito tempo sonhei com uma casa parecida. Uma casa nossa. Um lugar onde pudéssemos envelhecer sem grandes preocupações.
Ainda me custa escrever frases assim. Porque continuo a pensar no futuro utilizando palavras que já não fazem sentido.
"Nós."
Durante sete anos essa palavra saiu-me naturalmente. Agora parece uma peça de roupa que deixou de servir e que continuo a tentar vestir por hábito.
Quando a Alice regressou, apareceu na cozinha com aquela energia irritante das pessoas que já fizeram alguma coisa produtiva antes das oito da manhã. Preparou torradas, falou sobre o tempo, comentou uma notícia qualquer que tinha ouvido na rádio e comportou-se como se o mundo continuasse exatamente igual ao que era há um mês.
Às vezes invejo-a por isso.
Outras vezes percebo que talvez esteja a fazer um esforço consciente para me mostrar precisamente essa ideia: o mundo continua. Independentemente daquilo que nos acontece, o mundo continua.
Depois do pequeno-almoço fomos até ao lago de que ela me tinha falado no dia anterior. O caminho atravessava algumas zonas mais afastadas do centro da cidade e aproveitei para observar melhor os arredores. Há algo de curioso em Gramado. Apesar de ser uma cidade turística, não transmite aquela sensação artificial que existe em tantos destinos construídos exclusivamente para visitantes. As pessoas vivem aqui. Trabalham aqui. Fazem compras, levam os filhos à escola, discutem contas e problemas exatamente como em qualquer outro lugar. Talvez seja por isso que me tenha sentido mais confortável do que esperava.
O lago é bonito.
Não é daqueles lugares que nos deixam sem palavras, mas daqueles que nos convidam a ficar mais tempo do que tínhamos planeado. A água encontrava-se praticamente imóvel e refletia as árvores que rodeavam toda a margem. Havia casais a passear, famílias a tirar fotografias e algumas pessoas sentadas simplesmente a apreciar a paisagem.
Escolhemos um banco virado para a água e ficámos ali durante bastante tempo. Sem pressa nem grandes conversas.
A Alice nunca teve medo do silêncio.
A certa altura perguntou-me se eu queria falar sobre o casamento. Não utilizou rodeios nem tentou preparar o terreno. Simplesmente, fez a pergunta.
Respondi que não sabia.
Parte de mim quer falar sobre isso constantemente. Outra parte está cansada do assunto. Cansada de reviver aquele momento, cansada das imagens que regressam quando menos espero e cansada da sensação de humilhação que continua agarrada a mim como se tivesse sido cosida à pele.
A Alice ouviu os meus desabafos sem interromper. Quando terminei, ficou alguns segundos a olhar para o lago antes de dizer uma coisa que me ficou na cabeça durante o resto do dia.
Disse que a pior traição nem sempre é a infidelidade. Segundo ela, a pior traição é descobrir que a realidade em que acreditávamos não existia da forma como imaginávamos.
No momento não respondi, preferi manter o silêncio. A resposta custou-me a engolir, confesso. Mas depois percebi exatamente o que ela queria dizer. Porque o que me destruiu não foi apenas perder-te; foi perder a certeza que tinha sobre a minha própria vida.
Durante anos pensei conhecer-vos aos dois. Pensava conhecer o homem com quem dormia todas as noites e a mulher que considerava uma irmã. Pensava conhecer a história que estava a viver.
Agora olho para trás e encontro demasiadas perguntas sem resposta.
Será que toda a gente sabia menos eu?
Será que existiram sinais?
Será que alguém tentou avisar-me?
Será que vocês se encontravam regularmente?
Será que falavam de mim?
É impressionante a quantidade de dúvidas que uma única descoberta consegue criar.
Regressámos a casa já ao final da tarde. A Alice foi tratar de algumas coisas relacionadas com o trabalho e eu acabei por ficar sozinha na varanda. Trouxe um livro comigo, mas não consegui passar da terceira página. A minha capacidade de concentração desapareceu algures entre o casamento e a viagem para o Brasil.
Em vez de ler, fiquei a observar a rua. Uma senhora passeava um cão pequeno. Um rapaz regressava da escola de bicicleta. Dois vizinhos conversavam junto a um portão. Cenas completamente normais. E, pela primeira vez desde que cheguei, não senti inveja da normalidade dos outros. Talvez porque, aos poucos, esteja a aceitar uma verdade que tenho tentado evitar.
A vida não me deve explicações. Não me deve justiça. Não me deve finais perfeitos.
A única coisa que me deve é a oportunidade de continuar.
O que faço com essa oportunidade já depende de mim.
Ainda não sei como vou conseguir fazê-lo. Ainda não sei quanto tempo demorarei a voltar a confiar em alguém. Ainda não sei sequer se quero voltar a apaixonar-me algum dia.
Mas hoje, pela primeira vez em muitas semanas, consegui imaginar um futuro que não terminava naquela sala da quinta.
E neste momento isso já é mais do que eu tinha há alguns dias.
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